Diário de Design #2 – Bestas e seus Desafios

Central ao propósito do projeto GIMP, estão as Bestas Tradicionais Portuguesas. Elas servirão como principal desafio às personagens, e é à volta delas que eu quero desenvolver o design do jogo. De acordo com as situações que elas engendram, assim terei de criar mecânicas, desenvolver conflitos, imaginar soluções.

Baseando-me no trabalho já realizado no Bestiário Tradicional Português do Nuno Matos Valente, posso criar algumas categorias de Bestas, e identificar os conflitos que elas apresentam a quem se depara com elas.

Medos e Papões – Criaturas na sua maioria fantásticas, que fazem algo assustador como raptar e/ou matar. São muito perigosas, difíceis de enfrentar e até de impedir. Todas fazem dos incautos as suas vítimas, mas encontram-se habitualmente em sítios específicos, pelo que ter algum cuidado pode salvar a vida dos inocentes.

Corredores de Fado – Pessoas amaldiçoadas que se tornam lobisomens. Há uma clara evolução nesta categoria, um Tardo ou uma Peeira vira Lobisomem e depois Corrilário. Poderemos considerar então que não é tanto uma categoria, mas um Besta com um desenvolvimento muito mais complexo que as restantes.

Animais – Criaturas decididamente fantásticas, dotadas de inteligência acima da média para o animal que tem como base. Vemos nesta categoria o aparecimento de Bestas Lendárias, o Cavalo do Pensamento e o Bicho-Cidrão, que são únicos no território e como tal devem estar mais alto nalguma hierarquia mitológica. São mais forças da Natureza do que criaturas com agendas próprias.

Fadas, Moiras e Bruxas – Fortemente entrincheiradas na magia, e exclusivamente femininas, não são tanto forças da destruição mas mais de caos e conflito. Enfeitiçam quem as vê, negoceiam trocas terríveis, enganam aqueles que pensam poder obter algo delas. A Velha da Égua Branca é a criatura lendária do grupo, tendo ligações com outras criaturas.

Espíritos, Fantasmas, Bruxos e Demónios – As criaturas desta categoria são muito mais destrutivas que na anterior, procurando e amaldiçoando as suas vítimas. Borborinho e Tatro Azeiteiro serão espíritos naturais que alteram o clima, Aventesma e Homem das Sete Dentaduras serão fantasmas que procuram punir os vivos, Dianho e Entre-aberto serão claramente demónios assustadores e perigosos, enquanto que o Secular e Homem do Chapéu de Ferro podem ser considerados bruxos por direito próprio.

Criaturas Diminutas – Pequenas criaturas que enganam ou ajudam as pessoas. Não parecem ter como propósito fazer mal, mas podem ser fonte de caos para quem as encontra. As Fadas Jãs podem fazer parte desta categoria, mas fazem mais uso de magia do que os restantes.

Gigantes – Criaturas massivas e irresistíveis, a sua presença é difícil de esconder e têm um impacto grande onde estão. Olharapos partilham semelhanças com Bruxos ou Demónios, Almajonas partilham parecenças com Medos e Papões. O Secular das Nuvens também tem uma estatura Gigante, mas como tradicionalmente habita as nuvens, não interage diretamente com as pessoas na terra.

Desta classificação prévia podemos retirar que temos criaturas que só querem o mal das vítimas, raptando-as, matando-as ou amaldiçoando-as, mas há outras criaturas que não se importam com as pessoas, só se forem abordadas podem fazer mal. Há finalmente outras que podem até ser benéficas, normalmente as mais pequenas. Como há uma partilha de alguns fatores entre criaturas das diferentes categorias, acho que será melhor analisa-las uma a uma e procurar por quantificadores que possam estar presentes em todos. Por exemplo, tamanho não parece ser algo que define as intenções das criaturas. Por isso conto que a próxima sequência de artigos seja uma exploração de cada criatura, de modo a identificar a sua relevância num cenário de aventura e investigação.

Diário de Design #1: As 3 perguntas

Vamos começar pelo princípio. Para mim, mesmo que alguns considerem que este passo esteja ultrapassado, ainda o vejo como uma das coisas mais importantes no design de RPGs: As 3 Grandes Perguntas. Originalmente criadas algures entre os sites RPG.net e TheForge.net, já tiveram algumas diferentes configurações mas estas feitas por Jared Sorensen são as minhas favoritas. Vamos a isso!

#1 – Sobre o que é o teu jogo?
GIMP RPG é um jogo sobre um grupo de investigadores do sobrenatural, nativos e residentes em Portugal, que investigam ocorrências relacionadas com a influência de Bestas Tradicionais Portuguesas. É passado nos dias de hoje, e como é um setting contemporâneo terá muito pouca presença de magia, centrando-se essa influência principalmente na presença das referidas Bestas. Os investigadores pertencem a um ramo do governo (ou sociedade independente) que investiga e resolve problemas criados pelas Bestas, de modo a proteger os portugueses das Bestas, ou vice-versa.

#2 – Como é que o teu jogo faz isso?
O jogo estará centrado à volta de investigação e descoberta das Bestas, e eventual resolução dos problemas criados por elas. As Bestas são invisíveis aos olhos humanos, mas algumas delas conseguem exercer influência direta sobre o seu ambiente envolvente. Para poderem ver e  interagir com as Bestas, as personagens têm de saber com o que estão a lidar graças a uma investigação cuidadosa por diferentes vertentes (bibliotecas, entrevistas, pesquisa no terreno, etc.), e o mistério da natureza das Bestas torna-se mais claro. O sistema irá reforçar este conceito, prendendo a eficácia da interação com as Bestas à investigação antecedente.

#3 – Que comportamentos são recompensados ou encorajados no teu jogo?
O jogo está dirigido para personagens focadas em resolver mistérios, em acreditarem no sobrenatural para além do razoável, protetoras da população ou das Bestas, ou mesmo de segredos. As investigações lidam sempre com um complicação advinda da presença de uma Besta  numa comunidade humana, e a maneira de resolver o problema estará nas mãos das personagens. Irão elas resolvê-las com diplomacia ou violência? A solução escolhida trará novos problemas? No final da missão as personagens serão avaliadas, e isso irá determinar a sua progressão de carreira como agente do GIMP, o que lhe dará acesso a mais conhecimento e/ou recursos ao seu dispor nas próximas investigações.

Por agora é isto, julgo que já deve dar uma boa ideia do que estou a tentar fazer (*cof* X-Files à Portuguesa *cof*), e espero que vos tenha deixado interessados em seguir este desenvolvimento.

Objetivo 2019: Projeto GIMP

Então vamos mas é começar: o meu projeto principal para 2019 vai se chamar por agora “GIMP – Gabinete de Investigação Mitológica Portuguesa”.

Na sequência de inúmeras discussões pelos grupos portugueses de RPG, há sempre um tópico recorrente: há monstros portugueses que podemos usar nos RPGs? (normalmente toca só a D&D, mas hey, vamos expandir para outras coisas). A verdade é que até à pouco tempo, nem havia uma referência de monstros do folclore nacional. Isso mudou com o lançamento do “Bestiário Tradicional Português” pelo Nuno Matos Valente. O Nuno passou 4 anos a investigar compêndios de folclore, conseguiu reunir imensa informação, e graças à Editora Escafandro fez o livro com 36 criaturas. Recentemente tive a oportunidade de conversar com ele no podcast do Rola Iniciativa, e mesmo que ele nunca tenha jogado RPGs, ficou fascinado com o potencial que o livro dele tem para se tornar um jogo.

Já tenho há algum tempo a intenção de criar um RPG como deve ser, mas falta de tempo e motivação têm-me afastado do projeto. Felizmente o pessoal do Rola Iniciativa é super bacano e somos uma grande comunidade que se apoia mutuamente. É incrível que com alguma paciência foi possível termos um cantinho saudável em que a nossa criatividade é bem recebida e desejada, e mesmo os “maus elementos” de outros lados por ali são úteis a todos. O André Tavares (aka ScumbagDM) está neste momento a converter as criaturas do “Bestiário” para D&D 5ed. no seu programa Monster Monday, e já tem uma Aventesma pronta a rolar à mesa. A seguir vem o Tardo, depois disso ainda ninguém sabe qual vai ser pois o programa tem uma enorme componente de participação do público. Ele pode estar a escrever e a dirigir, mas na verdade são as sugestões do chat ao vivo que fazem a criação. Vai ser um processo moroso, mas está a ser muito bem recebido!

Obviamente que todo este sucesso me deixa mal, porque eu ando a dizer que vou fazer algo parecido, mas depois nada acontece. Isso acabou, principalmente depois de 2 episódios do podcast do Rola Iniciativa, o primeiro com o Diogo Nogueira e depois com o Jim McClure. Os nomes podem dizer pouco agora, mas são criadores independentes que graças à sua grande força de vontade e habilidade conseguiram fazer os próprios jogos. E não são quaisquer jogos, são boas obras e estão a ser muito bem aceites e reconhecidas pela comunidade RPG. Ambos conseguiram transmitir a lição que todos precisamos de aprender: escrever um livro, fazer um jogo, criar qualquer coisa é para qualquer um! Eles não aprenderam debaixo de nenhum mestre, são auto-didátas que nunca baixaram os braços e que hoje estão a colher os frutos do seu trabalho.

Por isso, por eles e por todos os envolvidos, mas principalmente por mim, dou início a uma série de projetos paralelos, com o intuito de me treinar para durante 2019 fazer a versão alpha do GIMP RPG. Ainda não sei que mecânicas vou colocar, que estrutura o jogo vai ter, mas já tenho conceitos bem estabelecido sobre os quais vou trabalhar. Espero fazer updates semanais, no máximo quinzenais, sobre o estado deste projeto. Pelo meio vou colocando outros projetos, como forma de treinar e explorar design de jogos, e com as lições aprendidas fazer o melhor por este processo. Vai ser um ano interessante, vai vai..!